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15 de novembro de 2015

Cirurgia da obesidade: o papel do endocrinologista na equipe multidisciplinar

O estilo de vida atual caracterizado por alimentação inadequada, rica em produtos prontos de alto valor calórico, associada ao sedentarismo fez crescer o número de pessoas com excesso de peso. No Brasil, cerca de 10% da população possui índice de massa corpórea (IMC) maior ou igual a 30 kg/m2, ou seja, está obesa.
Entre as alternativas para o tratamento da obesidade, tem-se usado cada vez mais a cirurgia da obesidade ou cirurgia bariátrica. A cirurgia bariátrica consiste em um conjunto de técnicas onde o trato gastrointestinal (estômago e intestino) é manipulado para restringir a quantidade de comida e/ou diminuir a absorção dos alimentos tendo como objetivo a redução do peso.



De uma maneira geral, a cirurgia bariátrica pode ser indicada para pacientes com IMC maior ou igual a 40 kg/m2 ou IMC maior ou igual a 35 kg/m2 quando associado a outras doenças (diabetes mellitus tipo 2, apneia obstrutiva do sono, apneia do sono, doenças articulares, entre outras).
Devido à complexidade da obesidade como doença, o sucesso do procedimento cirúrgico somente é garantido se o paciente for devidamente avaliado e acompanhado por equipe multidisciplinar. Fazem parte desta equipe: o cirurgião geral, o anestesista, o nutricionista, o psicólogo, o fisioterapeuta, o psiquiatra e o endocrinologista. Podem fazer parte também: o clínico geral, o educador físico, o gastroenterologista e o cardiologista.
O papel do endocrinologista consiste em verificar a indicação, afastar causas secundárias de obesidade, avaliar o paciente quanto à presença de complicações associadas à obesidade e acompanhar o paciente no pós-operatório para prevenir e tratar as possíveis complicações clínicas e nutricionais associadas tanto à cirurgia quanto à obesidade.
Entre as causas secundárias de excesso de peso estão doenças da tireoide e da glândula adrenal além de distúrbios hipotalâmicos. Estas doenças são investigadas pelo endocrinologista quando existe suspeita clínica.
Com relação às complicações associadas à obesidade, destacam-se: pressão alta, elevação do colesterol e triglicerídeos, diabetes mellitus, apneia do sono, artrose, gota e depósito de gordura no fígado (esteatose). Antes da cirurgia, todos estes problemas devem ser devidamente avaliados e tratados, já que aumentam o risco cirúrgico. Uma vez que o emagrecimento comece a acontecer, várias destes problemas podem melhorar, exigindo assim ajustes nas doses das medicações em uso.
Além disso, o endocrinologista solicita exames para avaliar a condição nutricional do paciente no pré-operatório e regularmente no pós-operatório. Estes exames são importantes, pois após a cirurgia podem acontecer deficiências de nutrientes, mesmo com a suplementação feita de rotina. Por exemplo: devem-se dosar no sangue os níveis de vitamina B12 e de vitamina D. A deficiência destas vitaminas pode acontecer após a cirurgia e levar o paciente a anemia, doenças nos nervos, osteoporose e fraturas.
O acompanhamento médico com o endocrinologista também garante que o paciente não vá recuperar o peso após a cirurgia. Estudos recentes mostram que até metade dos pacientes que fazem cirurgia bariátrica recupera pelo menos 25% do peso perdido dentro de 10 anos. A educação continuada do paciente, a monitorização do peso e o tratamento medicamentoso, quando necessário, ajudam a evitar que a obesidade volte.
Se você pretende fazer cirurgia bariátrica, agende uma consulta com o endocrinologista para iniciar seu acompanhamento, que deverá ser mantido por tempo indeterminado. A ansiedade pela cirurgia e pelos seus resultados é compreensível, mas não deve atrapalhar a avaliação que é muito importante e não deve ser feita de maneira apressada. A cirurgia bariátrica não é milagrosa, mas funciona muito bem desde que a indicação, avaliação e seguimento sejam feitos corretamente.

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista
Mestre em Endocrinologia
CREMERS 30.576

21 de outubro de 2015

Consumo de café e diabetes mellitus

A cafeína é sem dúvida o estimulante mais consumido no mundo. O café, além de melhorar o estado de alerta e certos parâmetros cognitivos, está associado a uma menor incidência de diabetes mellitus tipo 2. Vamos entender como isso funciona e como podemos nos beneficiar deste potencial preventivo.



Apesar de alguns estudos de curta duração sugerirem que a cafeína possa induzir resistência insulínica, isto é, dificultar que a insulina exerça sua função de facilitar a entrada da glicose (açúcar do sangue) nas nossas células, estudos de longa duração mostram exatamente o contrário. O consumo regular tanto de café quando de chá verde/preto ajuda a insulina produzida pelo pâncreas a funcionar melhor e isto leva à redução dos níveis de glicemia após as refeições e à prevenção do diabetes. Ainda não se sabe qual o mecanismo exato por trás deste benefício, mas existem fortes candidatos:
- o consumo de café cafeinado está associado ao aumento dos níveis de adiponectina, hormônio que sabidamente reduz a resistência insulínica.
- o café cafeinado também está associado ao aumento da globulina ligadora dos hormônios sexuais, o que pode ser capaz de modular efeitos biológicos da testosterona e do estradiol nos tecidos periféricos que captam a glicose.
- a cafeína é capaz de ativar o transporte de glicose para dentro das fibras musculares independentemente da insulina, efeito similar ao do exercício.
- o consumo prologado da cafeína, em modelos animais, pode modular a sinalização através do IGF-1 aumentando a sensibilidade à insulina.
Independentemente do mecanismo, diferentes estudos já apontaram diminuição do risco de diabetes mellitus tipo 2 com o consumo do café.  O maior deles trata-se de uma revisão sistemática que compilou dados de 9 estudos e avaliou o efeito do consumo de café em quase 200 mil pessoas nos Estados Unidos, Europa e Ásia. Neste estudo, foi observada uma redução no risco de diabetes de até 35 porcento. O consumo de 2 xícaras por dia  já se mostrou benéfico, e quanto maior foi a ingesta (até 6 xícaras)  menor foi a incidência de diabetes. No entanto, como trata-se da análise de estudos observacionais, a relação causa-efeito não pode ser provada apesar dos fortes indícios. Logo, o consumo de café como estratégia para prevenção do diabetes não é formalmente recomendada.
No entanto, apesar de não serem definitivas, as evidências pesam sim a favor do café como potencial aliado contra o diabetes. Mas como se beneficiar deste possível efeito protetor? A dose de até 400 mg de cafeína por dia, que equivale a duas xícaras, é bem tolerada pela maioria dos adultos. Contudo, pessoas com enxaqueca, ansiedade, tremores, insônia ou arritmias podem piorar da sintomatologia mesmo ingerindo pequenas quantidades da bebida. Ou seja, consuma moderadamente e na dúvida consulte seu endocrinologista.

Fonte: Dam RM, Hu FB. Coffee consumption and risk of type 2 diabetes: a systematic review. JAMA. 2005;294(1):97

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista
Mestre em Endocrinologia
CREMERS 30.576

13 de setembro de 2015

Será que meu filho está baixinho? Saiba quando desconfiar de baixa estatura

O que é baixa estatura?

Uma criança ou adolescente é considerada com baixa estatura quando está 2 desvios-padrões abaixo da média idade e sexo, ou seja, quando fica fora dos canais de crescimento nos gráficos. Mais importante do que um medida isolada da estatura, são as medidas consecutivas, que dão informação sobre a velocidade de crescimento. Logo, o acompanhamento regular com o pediatra, mesmo na criança saudável, é fundamental para que se identifiquem aquelas que necessitam de avaliação complementar. Outra maneira de desconfiar de baixa estatura é observando se a criança tem a mesma altura que as outras da mesma idade, embora a avaliação através dos gráficos de crescimento seja muito mais apropriada.



Quais as causas de baixa estatura?

Existem diversas causas de baixa estatura. Estas vão desde doenças genéticas, doenças crônicas (anemia, asma, doenças renais e cardíacas, entre outras), problemas emocionais, doenças esqueléticas e doenças endocrinológicas (raquitismo, diabetes mellitus mal controlado, deficiência do hormônio do crescimento, hipotireoidismo, doenças da adrenal e distúrbios da puberdade).

Como é feita a avaliação da baixa estatura?

A avaliação é feita através da história detalhada da criança desde o nascimento. São avaliados medicamentos em uso, presença de doenças e o desenvolvimento sexual. É importante, se possível, que ambos os pais compareçam a consulta, pois deverão ser medidos para que se possa calcular a altura alvo da criança. Dependendo da avaliação clínica inicial, podem ser pedidos exames gerais, além de raio-x da mão para avaliação da cartilagem de crescimento. Conforme os resultados dessa primeira leva de exames, podem ser necessários testes específicos para confirmação dos diferentes diagnósticos.

Como é feito o tratamento da baixa estatura?

O tratamento depende da causa, sendo que para algumas condições não existe tratamento específico. Por exemplo, na criança com hipotireoidismo, se repõe o hormônio tireoidiano; já na criança com diabete, trata-se a doença apropriadamente.
Ao contrário do que se pensa, o hormônio do crescimento não está indicado para todas as crianças com problemas de crescimento e sim para aquelas com deficiência comprovada ou em grupos selecionados, como meninas com síndrome de Turner ou crianças com insuficiência renal crônica. O tratamento é mantido até o final do crescimento e em alguns casos indefinidamente.
Nas crianças que precisam de tratamento específico, quanto antes este for iniciado, melhores serão os resultados. Logo, quando se identifica ou se desconfia de problemas no crescimento, a criança deve ser prontamente avaliada. Retardar a avaliação esperando que seu filho(a) vá crescer depois pode trazer prejuízos irreparáveis a estatura final.

Se você ou o pediatra percebeu ou desconfia que seu filho(a) possa estar crescendo menos que o esperado, agende consulta com o endocrinologista para avaliação pormenorizada.


Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista
Mestre em Endocrinologia
CREMERS 30.576

6 de setembro de 2015

Hemoglobina glicada e sua importância no seguimento do paciente diabético

O que é hemoglobina glicada?

Hemoglobina glicada ou hemoglobina A1C é um exame de sangue que mostra a média da glicose nos últimos 2 ou 3 meses.
É um exame importante por dois motivos:
- serve para ajudar a diagnosticar o diabetes mellitus;
- no paciente que já tem o diagnóstico, serve para saber se o tratamento está adequado.



Quais os valores normais da hemoglobina glicada?

Nos pacientes que ainda não tem diagnóstico de diabetes, valores de hemoglobina glicada maiores ou iguais a 6,5% sugerem que este paciente possa ter a doença. Logo, deve-se repetir o exame para se confirmar o diagnóstico.
Nos pacientes que já se sabem diabéticos, a hemoglobina glicada deve estar em torno de 7% ou menos. Estes valores querem dizer que a glicose no sangue está bem controlada e o tratamento está sendo feito corretamente.

Com que frequência deve-se fazer o exame?

Se os valores da hemoglobina glicada estiverem abaixo de 7%, o tratamento está adequado, logo o exame pode ser repetido a cada 4 ou 6 meses, dependendo do caso. Mas se os valores estiverem acima de 7%, o tratamento para o diabetes deve ser revisado e ajustado, e o exame deve ser repetido em 2 ou 3 meses.

Qual a importância da hemoglobina glicada?

Várias pesquisas científicas mostram que manter a hemoglobina glicada dentro do normal ajuda a evitar complicações do diabetes como:
- problemas na retina que podem levar a cegueira;
- doenças nos nervos;
- doença renal e hemodiálise;
- doenças vasculares com infarto do miocárdico e acidente vascular encefálico (isquemia).

Se você é diabético, mantenha acompanhamento regular com seu endocrinologista e procure fazer o tratamento da melhor maneira possível para manter a hemoglobina glicada o mais próximo possível do normal.


Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista
Mestre em Endocrinologia
CREMERS 30.576

5 de agosto de 2015

Hormônio do crescimento e envelhecimento

No texto anterior, aprendemos que a medida que o tempo passa, nossas células envelhecem e seus tecidos perdem função. Isso acaba por levar à diminuição nos níveis de alguns hormônios, entre eles o hormônio do crescimento ou GH (do inglês growth hormone). Neste "capítulo", entenderemos um pouco mais sobre como o GH age e o que vai acontecendo à medida que os anos passam...
A glândula hipófise, que está localizada na base do cérebro logo atrás dos nossos olhos, começa a fabricar o GH desde muito cedo, quando ainda estamos dentro do ventre de nossas mães. O gene do GH está localizado no cromossomo 17 e é regulado por interações complexas. A secreção do GH pela hipófise pode ser estimulada ou inibida por diferentes fatores. O GHRH (do inglês growth hormone releasing hormone), por exemplo, é um hormônio produzido na região do cérebro chamada de hipotálamo e estimula a secreção do GH; já a somatostatina, inibe a secreção do GH. Fatores não hormonais também são importantes. A atividade física aumenta a secreção de GH e a obesidade diminui. A liberação do GH pela hipófise acontece em pulsos, isto é, durante a noite na fase de sono profundo, são liberadas grandes quantidades em intervalos pequenos. Esta informação é importante, pois uma dosagem baixa de GH não significa necessariamente que haja deficiência, mas que a coleta do exame foi feita no momento ou de forma incorretos.



Após cair na corrente sanguínea o GH viaja até o fígado onde estimula a produção do IGF-1. É através do IGF-1 que o GH promove o crescimento através da cartilagens localizadas nos ossos longos. Outras funções importantes do GH são aumento da síntese proteica, o que ajuda a formar músculos, e aumento da lipólise, isto é, aumento da queima da gordura estocada.
A medida que ficamos mais velhos, duas coisas acontecem:
1- O hipotálamo reduz progressivamente a secreção do GHRH. Além disso, a hipófise torna-se cada fez menos sensível ao hormônio hipotalâmico. Como consequência, a secreção de GH também cai.
2- Existe a tendência à inatividade com consequente ganho de peso. Como vimos anteriormente, isso também contribui para queda nos níveis do GH. Aqui temos um ponto frequentemente interpretado de maneira incorreta pelos defensores das terapias de "modulação hormonal" para combater o envelhecimento. A queda do GH é consequência da envelhecimento e de um modo de vida sedentário e não a causa! Outro fator que pode piorar a secreção do GH com a idade é a baixa qualidade do sono.
Apesar de todos os indícios apontarem que a queda dos níveis do GH são consequência e não causa do processo de envelhecimento, já foram realizados diversos estudos visando normalizar ou "modular" os níveis deste hormônio na tentativa de manter o bem estar e a juventude. No entanto, os resultados foram ora contraditórios, ora decepcionantes...
Um dos estudos mais bem desenhados sobre o assunto foi publicado na revista médica JAMA em 2002. Neste ensaio clínico randomizado, foram avaliados 131 pacientes (homens e mulheres) com mais de 65 anos. Conforme esperado, o uso do GH ajudou a aumentar a massa muscular, reduzir a massa gordurosa e a melhorar a performance atlética de maneira muito sutil. Contudo, efeitos adversos como inchaço, dores nas juntas, síndrome do túnel do carpo e diabetes foram muito frequentes, o que levou os pesquisadores do estudo a concluir que este tipo de tratamento não deve ser usado, pois os prejuízos à saúde são maiores que os benefícios.
Cinco anos após, em 2007, foi publicada na revista Annals of Internal Medicine um extensa revisão de toda a literatura médica sobre o uso do GH como tratamento "anti-aging". Esta revisão compilou os dados de 18 estudos para chegar às seguintes conclusões:
- os estudos foram curtos demais. Não duraram mais do que 6 meses. Isso limita muito a capacidade de avaliar benefícios e principalmente os possíveis riscos à saúde.
- GH não emagrece. O peso dos participantes se manteve estável. Contudo, em média, houve ganho de 2 quilos de massa magra e perda de 2 quilos de gordura.
- essa mudança na composição corporal não foi capaz de reduzir os níveis de colesterol nem de melhorar a massa óssea após os devidos ajustes às particularidades de cada paciente.
- os pacientes que fizeram uso de GH apresentaram efeitos adversos como inchaço, dores nas juntas, síndrome do túnel do carpo, glicose elevada, diabetes e ginecomastia (crescimento de mamas em homens).
Logo, o uso da terapia de "modulação hormonal" com GH oferece um ganho muito discreto às custas de efeitos adversos muito frequentes e custo elevado. Além disso, estudos com animais têm mostrado que níveis diminuídos de GH estão associados à maior longevidade, uma observação intrigante que põe em cheque a hipótese de que a reposição de hormônio do crescimento seria de fato um tratamento "anti-aging".
Infelizmente, apesar dos fatos científicos e das recomendações em contrário, algumas pessoas ainda buscam e outras ainda oferecem esta falsa "fonte da juventude"...
Fique de olho! E na sequência, conversaremos sobre outros hormônios e seus papéis no envelhecimento.

Referências:
1- Blackman MR et al. Growth hormone and sex steroid administration in healthy aged women and men: a randomized controlled trial. JAMA. 2002;288(18):2282.
2- Liu H et al. Systematic review: the safety and efficacy of growth hormone in the healthy elderly. Ann Intern Med. 2007;146(2):104.

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista
Mestre em Endocrinologia
CREMERS 30.576

26 de julho de 2015

Maconha pode ser útil no tratamento da dor em pacientes diabéticos com neuropatia

Uma das complicações mais prevalentes e mais problemáticas em pacientes diabéticos é o acometimento dos nervos. A neuropatia diabética costuma acometer de 30 a 50 por cento dos pacientes diabéticos em algum momento. O quadro clínico é variável e depende dos nervos acometidos. A forma mais frequente é a polineuropatia sensório-motora distal, que costuma causar sintomas dolorosos no pés. A dor deste tipo de neuropatia, em alguns casos, é de difícil tratamento apesar das diversas opções terapêuticas disponíveis. Considerando isso, um grupo de médicos da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, resolveu estudar o efeito terapêutico da maconha no combate à dor neuropática.



No estudo publicado na revista médica  “Journal of Pain” no final do mês de julho de 2015, dezesseis pacientes diabéticos dos tipos 1 e 2 foram avaliados através de um ensaio clínico randomizado se o uso da maconha vaporizada poderia ajudar no controle dos sintomas dolorosos. Para que o estudo fosse feito, os pesquisadores usaram maconha de procedência certificada, ou seja, com quantidades conhecidas do princípio ativo delta-9-tetrahidrocanabinol (THC). Além disso, a maconha não foi fumada, mas vaporizada através de um aparelho chamado Volcano. Este vaporizador esquenta a maconha até 200 graus Celsius, fazendo com que sejam liberados os princípios ativos na forma de vapor que é nebulizado pelos participantes do estudo.
Durante as 4 horas que se seguiram à nebulização, foram avaliados os sintomas dolorosos e os possíveis efeitos adversos. O estudo mostrou que quanto maior a dose inalada, maior o potencial analgésico do vapor de maconha. Contudo, efeitos adversos com lentificação psicomotora e euforia também foram mais comuns com doses maiores.
O estudo é importante por evidenciar o potencial de uma nova classe terapêutica para uma condição de difícil tratamento. Contudo, os resultados ainda são preliminares, já que o grupo estudado foi muito pequeno e por período tempo insignificante, ainda mais sabendo que o diabetes é uma doença crônica que requer tratamentos prolongados, ou seja, realmente seguros e eficazes. Logo, não vale fumar maconha para tratar dor nos pés. Até que mais estudos confirmem estes achados, tal abordagem pode trazer mais riscos do que benefícios.

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista
Mestre em Endocrinologia
CREMERS 30.576

31 de maio de 2015

Novos antidiabéticos suspeitos de causar cetoacidose

Em meados de maio de 2015, o FDA, agência regulatória de medicamentos dos Estados Unidos, emitiu um alerta de que os medicamentos para tratar diabetes pertencentes a classe conhecida como inibidores do SGLT2, ou glifozinas, podem ser causa de cetoacidose diabética, uma complicação grave com necessidade de hospitalização. O alerta incluiu os inibidores de SGLT2 canaglifozina (Invokana), dapaglifozina (Forxiga) e empaglifozina (Jardiance), os dois últimos já disponíveis no mercado brasileiro.



Segundo o FDA, em um período de pouco mais de um ano, foram relatados 20 casos de cetoacidose diabética em pacientes com diabetes do tipo 2. Este tipo de complicação é pouco frequente no diabetes mellitus tipo 2. Além disso, os casos reportados tiveram apresentação atípica, com medidas de glicemia abaixo de 200 mg/dL. Nos pacientes com diabetes tipo 1, a cetoacidose costuma acontecer em níveis de glicemia acima de 250 mg/dL.
Entre os possíveis sintomas de cetoacidose diabética estão falta de ar, náusea, vômito, dor abdominal, confusão mental e fadiga e sonolência excessivas. Os profissionais da saúde, sejam endocrinologistas ou não, devem estar atentos para esta sintomatologia e suspender o uso do medicamento suspeito se a cetoacidose for confirmada. Conforme o FDA, os casos de cetoacidose possivelmente causados por glifozinas surgiram entre 1 e 175 dias após o início do uso da medicação, e, em metade dos casos, não houve fator precipitante como infecções ou desidratação.
Em resumo, médicos e pacientes devem estar atentos para cetoacidose diabética como possível complicação do tratamento com inibidores do SGLT2, para evitar desfechos mais graves. Também é recomendado que casos suspeitos sejam devidamente notificados às autoridades competentes (no Brasil, a ANVISA).
Fonte: Medscape

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista
Mestre em Endocrinologia
CREMERS 30.576

17 de maio de 2015

Medo de insulina

Quem nunca ouviu na sua infância a ameaça: “Olha que eu vou te levar no médico, e ele vai te dar uma injeção!”? Ou a história: “... e ele começou a usar insulina e teve que amputar a perna...”? Ou, menos frequentemente, vivenciou a rotina de um familiar que se escondia com suas agulhas e seringas, e que um dia sucumbiu à morte, após anos de hemodiálise?
Não podemos negar que agulhas, injeções e insulina estão emocionalmente associadas à punição, sofrimento e morte.  E que, há pouco tempo, coexistiam frequentemente.



Por isso, não é surpresa quando uma pessoa com diabetes declara: “Não quero usar insulina de jeito nenhum!”. Quando tentamos entender esta afirmação, logo encontramos vários aspectos.
Primeiro, para aceitar que temos uma doença, precisamos perceber a nossa vulnerabilidade e encarar que um dia iremos morrer. O remédio que tomamos pode ser visto como uma lembrança diária disto. Imaginar uma aplicação diária de insulina, então, pode ser algo insustentável para alguns.
Segundo, até algumas décadas atrás, as campanhas de detecção e tratamento precoce do diabetes eram menos difundidas. Muito frequentemente, as pessoas passavam de 10 a 20 anos com a doença não diagnosticada, e quando a descobriam, já apresentavam perda de visão ou precisavam de hemodiálise, por causa do longo tempo de hiperglicemia não tratada. Além disso, a sua reserva de produção de insulina também se esgotava por falta de tratamento, e o paciente precisava receber insulina. Assim, uma pessoa aparentemente saudável era vista no mesmo período de sua vida iniciando o uso de insulina e amputando uma perna, por exemplo. O entendimento popular destes acontecimentos era: “A pessoa ficou doente por causa da insulina”.
Terceiro, agulhas que provocavam dor na aplicação, aspiração da insulina de dentro de frascos, doses que precisavam ser colocadas em seringas com numerações diferentes...  Por décadas, a aplicação de insulina era realmente desconfortável e complexa. 
Assim, chegamos aos dias de hoje. Em geral, o diagnóstico é mais precoce, e podemos fazer um bom tratamento para manter a glicemia controlada. As pessoas com diabetes vivem mais e melhor, já que a maior parte das complicações é evitada. Entretanto, em algum momento, pode ser necessário usar insulina, justamente para manter a qualidade de vida e evitar complicações. 
Atualmente, temos disponíveis práticas canetas aplicadoras de insulina e agulhas tão finas que tornam a picada quase imperceptível. Os pacientes não adoecem ao usar insulina. Pelo contrário, se ela for iniciada no momento correto, permite garantir a sua saúde. 
O aumento da longevidade com boa qualidade de vida é uma realidade para as pessoas com diabetes. Entretanto, medos e preconceitos surgem quando é necessário utilizar insulina. Entender que algumas crenças podem estar equivocadas e assumir com maturidade seus cuidados pela saúde pode ampliar ainda mais estes benefícios.

Dra. Simone Peccin
Médica Endocrinologista
Mestre em Endocrinologia (UFRGS)
CREMERS 18941
Consultório em Porto Alegre/RS
Fone: (51) 3346 2441

28 de abril de 2015

Obesidade e preconceito

Na época atual, onde o progresso da ciência é imenso e o alcance e a rapidez de novas informações não têm precedentes na história, ainda temos concepções cristalizadas sobre muitos temas. Um deles é a  obesidade, que ainda é vista como “consequência de relaxamento” ou “falta de força de vontade” pela maioria das pessoas, inclusive por profissionais da saúde e pelos próprios portadores do problema. Eles frequentemente sentem-se culpados pelos insucessos do tratamento e desmoralizados por não conseguir resolver algo que “só depende deles”.


A obesidade é uma doença crônica, consequência da interação entre os genes e o ambiente, e está implicada no surgimento do diabetes, das doenças cardíacas e em alguns tipos de câncer. Pessoas obesas têm mais chance de morrer precocemente. Infelizmente, alguns fatores tornam o seu tratamento mais difícil. O aumento de peso ocorre com pouca oposição do nosso metabolismo, e esta resposta é menor ainda em pessoas mais propensas à obesidade - aí entra o fator genético. Enquanto isso, a redução de peso leva a uma grande resposta biológica que facilita o reganho de peso, por meio de mecanismos que aumentam a fome e reduzem o gasto de energia. Isto define a doença como recidivante, ou seja, ela tende a voltar.
Além disto, todos nós temos tendência a aumentar o peso no decorrer da vida. Para as pessoas obesas, isto tem uma repercussão ainda maior. Por isso, dizemos que a obesidade tem caráter progressivo.
Como nos mostrou a escritora Jane Austen, em seu clássico “Orgulho e Preconceito”, no início do século 19, a mudança de conceitos pode levar tempo para ocorrer, mesmo quando existem evidências de que eles estão equivocados. Obesidade é doença com graves implicações e deve ser tratada com todos os recursos da medicina atual, desde que devidamente comprovados cientificamente. Ideias errôneas, tanto por parte dos pacientes, quanto por parte dos profissionais de saúde, reduzem a chance de sucesso do tratamento. Precisamos superar o nosso "orgulho e preconceito" em relação à obesidade e conferir a devida importância  ao seu tratamento.

Mais detalhes em:  Biology's response to dieting: the impetus for weight regain. MacLean P, Bergouignan A, Cornier M , JackmanM. Am J Physiol Regul Integr Comp Physiol. 2011 Sep; 301(3): R581–R600.

Dra. Simone Peccin
Médica Endocrinologista
Mestre em Endocrinologia (UFRGS)
CREMERS 18941
Consultório em Porto Alegre/RS
Fone: (51) 3346 2441

20 de abril de 2015

Vacinação pneumocócica no paciente diabético

As infecções pneumocócicas, incluindo pneumonia, bacteremia e meningite, são importantes causas de adoecimento e de morte em crianças com menos de 1 ano de idade, idosos e em indivíduos com doenças crônicas como diabetes mellitus. Além disso, outras doenças comumente presentes nos pacientes diabéticos também aumentam o risco de infecções graves pelo pneumococo, como doenças cardíacas e a insuficiência renal crônica. Logo, a vacinação contra o Streptococcus pneumoniae é uma importante estratégia no cuidado preventivo dos pacientes diabéticos, sendo tão importante quanto o cuidado com os pés, por exemplo. A seguir, as principais vacinas, suas indicações, calendário e eficácia.

O pneumococo possui uma espécie de barreira protetora, chamada de cápsula, que dificulta o ataque de nossas células de defesa no momento da infecção. As vacinas estimulam a produção de anticorpos contra a cápsula do pneumococo facilitando o trabalho do nosso sistema imunológico. Existem mais de 90 diferentes sorotipos de cápsulas, e as vacinas visam os mais frequentes. Atualmente, dois tipos de vacinas estão disponíveis.
A vacina pneumocócica polissacarídica 23 valente é recomendada para todo paciente diabético dos 19 aos 64 anos. Já nos pacientes com 65 anos ou mais, além da vacina 23 valente, a vacina pneumocócica conjugada 13 valente também está indicada. No caso dos pacientes com menos de 65 anos de idade, apenas casos específicos, como os imunocomprometidos, recebem a vacina 13 valente. Neste grupo de pacientes com problemas na imunidade, podemos incluir os renais crônicos e os nefróticos.
O calendário vacinal para as vacinas pneumocócicas no paciente diabético é o seguinte:
- pacientes com menos de 65 anos: vacina pneumocócica 23 valente. Reforço após 5 anos.
- pacientes com 65 anos ou mais já vacinados com a 23 valente: vacina 13 valente 12 meses após 23 valente.
- paciente com 65 anos ou mais ainda não vacinados: vacina 13 valente primeiro. Após 6-12 meses, vacina 23 valente.
Diferentes estudos mostram que a vacinação, especialmente em indivíduos imunocomprometidos e em idosos, é capaz de reduzir pneumonias e infecções pneumocócicas invasivas, mas não mortalidade, podendo ser uma estratégia com boa custo efetividade quando devidamente indicada. Apesar de existirem recomendações específicas para os pacientes diabéticos como vimos acima, ainda faltam dados relacionados à eficácia e segurança neste grupo em particular.
Fonte: UpToDate OnLine

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista
Mestre em Endocrinologia
CREMERS 30.576

14 de abril de 2015

Diabetes mellitus tipo 2: conheça, enfrente e viva bem!

O que é diabetes mellitus tipo 2?

Todas as células do nosso corpo precisam de combustível para funcionar. O principal combustível chama-se glicose, que é um tipo de açúcar. Para que a glicose consiga entrar nas nossas células, ela conta com a ajuda do hormônio chamado insulina. No diabetes mellitus tipo 2, nossas células ficam menos sensíveis e a quantidade de insulina secretada pelo pâncreas (órgão que existe dentro do nosso abdome, atrás do estômago) passa a não ser suficiente. Isso faz com que a glicose suba no sangue, causando o diabetes.
O diabetes mellitus tipo 2 é a forma mais comum de diabetes. Aproximadamente 1 de cada 10 brasileiros é diabético.



O que causa o diabetes mellitus tipo 2?

São fatores de risco para o diabetes mellitus tipo 2:
- aumento da idade;
- etnia (negros têm o risco maior que os brancos);
- história de diabetes mellitus nos familiares;
- excesso de peso, principalmente se a barriga for grande;
- falta de atividade física;
- fumo;
- alimentação inadequada, com excesso de produtos industrializados e poucos cereais integrais, frutas e verduras.

Quais são os sintomas do diabetes mellitus tipo 2?

Atenção! A grande maioria dos pacientes não sente nada! Logo, é muito importante fazer exames periódicos, principalmente se você se encaixa em algum dos grupos de risco.
Quando a glicose está muito alta no sangue, os sintomas mais comuns são:
- necessidade de urinar toda hora;
- sede excessiva;
- visão borrada.
Pode acontecer também em alguns casos: fadiga, perda de peso e até mesmo coma com necessidade de internação hospitalar.

Como se faz o diagnóstico de diabetes mellitus tipo 2?

O diagnóstico do diabetes mellitus tipo 2 pode ser feito através da medida da glicose no sangue (mais especificamente, no plasma), em jejum e, em alguns casos, após sobrecarga de glicose anidra (após beber uma espécie de suco muito doce) ou da hemoglobina glicada. Se eles estiverem suficientemente elevados em duas ocasiões, o diagnóstico está fechado. Em pacientes muito sintomáticos, uma medida de glicose elevada já é suficiente para o diagnóstico.

O que o diabetes mellitus tipo 2 pode fazer de ruim para a saúde?

Além de causar os sintomas já descritos, se não tratado adequadamente, o diabetes mellitus tipo 2 pode levar a complicações como:
- cegueira;
- insuficiência renal crônica e hemodiálise;
- amputações;
- doenças vasculares como infarto e isquemias;
- doença nos nervos;
- em homens, problemas na ereção.

O diabetes mellitus tipo 2 tem cura?

O diabetes mellitus tipo 2 é uma doença crônica, ou seja, não tem cura. Mas com o tratamento adequado, evitam-se as complicações e o paciente tem uma excelente qualidade de vida.

Como se trata o diabetes mellitus tipo 2?

Além da modificação do estilo de vida (corrigir alimentação, fazer atividades físicas, emagrecer, parar de fumar), pode ser necessário uso de remédios para baixar a glicose. Existe uma grande diversidade de remédios antidiabéticos em comprimidos, além da insulina, que muitas vezes é necessária, principalmente nos casos mais graves. O paciente diabético deve manter controlada sua pressão arterial, colesterol no sangue e fazer regularmente avaliação/prevenção de possíveis complicações, como por exemplo, consulta com oftalmologista anual.
Por ter o manejo complexo, é aconselhável, sempre que possível, que o diabetes mellitus tipo 2 seja acompanhado regularmente (3 a 4 vezes por ano, no mínimo) por médico endocrinologista experiente e familiarizado com seu tratamento.

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista
Mestre em Endocrinologia
CREMERS 30.576

12 de abril de 2015

Diabetes mellitus gestacional: o básico

Chamamos de diabetes gestacional o aparecimento de glicemia alterada durante a gravidez. A Sociedade Brasileira de Diabetes orienta dosar a glicemia em jejum já na primeira consulta pré-natal. Se a glicemia estiver abaixo ou igual a 85 mg/dl, deve ser reavaliada entre a vigésima quarta e a vigésima oitava semana de gestação. Os resultados acima de  85  requerem um exame adicional. Na maioria dos casos, a dieta para diabetes é suficiente para corrigir os níveis de glicose, mas há casos em que tratamento com insulina é necessário. Mas após o parto, em geral a insulina é suspensa e a glicemia deve ser monitorada.
Mas qual a importância de cuidar da glicemia na gestação? Já ouviram falar de bebês muito grandes, com 4 ou 5 kg ao nascer? Pois é justamente uma glicemia alta que faz com que o bebê cresça muito e ganhe peso até demais, com riscos no parto para mãe e bebê, desde morte fetal até glicose muito baixa no recém-nascido. 
Além disso, a presença do diabetes gestacional pode ser um indício de que a mulher terá diabetes no futuro, mesmo anos após ter tido seu filho. É importante que as mulheres reavaliem sua glicose periodicamente após o parto, caso esta esteja acima de 99 mg/dL.
As mulheres que já têm o diagnóstico de diabetes mellitus tipo 1 (que usam insulina para viver) ou tipo 2 (que podem usar medicamentos ou evoluir para o uso da insulina) e que pretendem ter filhos têm de fazer um controle mais rigoroso da glicemia antes mesmo de engravidar, pois quanto melhor o controle na concepção e nos primeiros 3 meses, menor o risco para o bebê. 
O recado é simples: as gestantes têm de ser avaliadas quanto à glicemia na gestação e, se alterada, devem ser encaminhadas ao endocrinologista. Assim, bem assessoradas por obstetra e endocrinologista, é possível uma gestação com menor risco para que as mães possam ter o privilégio de ver o crescimento saudável de seus filhos.


Dra. Marcia Murussi
Médica Endocrinologista
Mestre e Doutora em Ciências Médicas: Endocrinologia (UFRGS)
CREMERS 19973
Consultório em Caxias do Sul/RS - Fone: (54) 3027 1585

15 de março de 2015

Hipoglicemia pós-prandial: problemas com o diagnóstico

A hipoglicemia pós-prandial frequentemente gera dúvidas e erros tanto no diagnóstico quanto no seguimento dos pacientes. Talvez seja a condição endocrinológica mais incorretamente diagnosticada. A seguir, os equívocos mais comuns e qual a abordagem considerada correta a luz do conhecimento médico atual.

Equívoco 1: A hipoglicemia pós-prandial é uma doença comum.

Hipoglicemia pós-prandial é o descritor do momento em que ocorre a hipoglicemia (até 4 horas após uma refeição) e não uma doença propriamente dita. A hipoglicemia pós-prandial é causada por doenças pouco frequentes como síndrome pós-cirurgia bariátrica, intolerância hereditária à frutose, insulinoma ou síndrome pancreatogênica hipoglicêmica não-insulinoma. Já ouviu falar em alguma delas? Diversos pacientes que procuram assistência médica por sintomas que acontecem após a alimentação como ansiedade, fraqueza, tremor, sudorese ou palpitações, na realidade têm diagnósticos bem mais comuns como síndrome pós-prandial, transtornos de ansiedade, síndrome do intestino irritável, intolerâncias alimentares, até mesmo enxaqueca. Ou seja, além de pouco frequente a hipoglicemia pós-prandial é muitas vezes diagnosticada de forma errada.




Equívoco 2: A hipoglicemia pós-prandial é diagnosticada através de curvas de glicose e insulina.

Eis um erro muito frequente! O paciente sintomático é avaliado através de uma curva com diversas medidas de glicose e insulina coletadas após uma sobrecarga de carboidratos. Caso a glicose baixe ou a insulina suba, o paciente é taxado como hipoglicêmico. Isto está incorreto!
Diversos estudos mostram que até 10% das pessoas normais quando são submetidas a curvas após sobrecargas de açúcar apresentam quedas dos níveis de glicose até valores abaixo de 50 mg/dL sem prejuízo algum para a saúde. Além disso, as curvas têm pouca relação com os sintomas. Isto é, paciente com valores de glicose considerados normais ou altos podem ter sintomas e paciente com valores considerados hipoglicêmicos podem não ter queixa alguma. Outro ponto interessante é que em alguns pacientes os sintomas podem ser desencadeados por placebo, isto é, uma substância inerte, sugerindo um fundo emocional para o quadro. Por fim, dosagens de cortisol e adrenalina realizadas durante estas curvas não se mostraram alteradas durantes os sintomas, o que sugere que eles não sejam causados por hipoglicemia.
A maneira correta de se diagnosticar qualquer tipo de hipoglicemia é através da tríade de Whipple. Para que um paciente seja considerado hipoglicêmico deve apresentar três critérios: sintomas compatíveis, dosagem de glicose abaixo de 50 mg/dL no momento dos sintomas em laboratório (não vale teste de ponta de dedo) e melhora dos sintomas quando a glicose volta a subir. Geralmente um paciente com sintomas suspeitos de hipoglicemia é orientado a comparecer a um laboratório após uma refeição habitual e lá permanecer por até 5 horas. Caso haja sintomas, deverão ser coletadas amostras para glicose, insulina, peptídeo C e pró-insulina. Após esta coleta, são administrados carboidratos e se observa a resolução dos sintomas. Caso se confirme a hipoglicemia, o paciente deverá ser investigado para as causas específicas para poder receber o tratamento apropriado.

Equívoco 3: Pacientes com hipoglicemia pós-prandial devem restringir açúcares ou ficarão diabéticos.

Como exposto anteriormente diversos pacientes recebem o diagnóstico errado e, consequentemente, o tratamento também. Por exemplo, um paciente com transtorno de ansiedade deve ser encaminhado para acompanhamento psiquiátrico e não ter a dieta modificada. Os raros casos de hipoglicemia pós-prandial deverão receber o tratamento conforme a doença de base. Por exemplo, um paciente com insulinoma deverá operar o tumor do pâncreas, já que a dieta ajudará muito pouco no manejo dos sintomas.

Se você tem sintomas após as refeições ou recebeu diagnóstico de hipoglicemia pós-prandial ou reativa, procure um endocrinologista de sua confiança e faça uma revisão. Como vimos equívocos são frequentes e nem sempre as coisas são o que parecem ser.

Dr. Mateus Dornelles Severo
Médico Endocrinologista